Literatura com psicologia,  Saúde Mental

O que sobra quando a tela se apaga?

Sobre o vazio, a identidade e o medo de ser comum.

Quantas vezes você se sentiu falando com as paredes? Ou passou horas tentando escrever algo que queria compartilhar — algo que levou tempo para processar — apenas para ser ignorado? E, pior, quantas vezes olhou para o lado e viu alguém ganhar atenção imediata por uma dancinha qualquer, um gatinho fofo ou simplesmente por parecer mais interessante, mais bonito, mais desejável?

Existe uma verdade na sua frustração, mas provavelmente não é a que você imagina.

Você já deve ter ouvido que a carroça vazia faz mais barulho. Pois é. Para uma multidão barulhenta, o vazio costuma ser banal; mais do que isso, costuma ser temido. Estímulos externos são frequentemente usados para fugir do desconforto de encarar as próprias sombras, faltas e medos, sendo substituídos pelo prazer imediato: entretenimento, sexo, compras, comida — qualquer coisa que anestesie.

Na fachada, há alegria.

Mas o que sobra quando é só você e você diante do espelho?

No post anterior, vimos como as narrativas moldam nosso comportamento e organizam aquilo que entendemos como “eu”. Essas construções podem nos preencher ou nos esvaziar, dependendo do quanto conseguem sustentar alguma coerência entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que realmente conseguimos viver.

Isso porque, para muita gente, felicidade se tornou quase sinônimo de validação imediata: ser desejado, visto, reconhecido e confirmado o tempo todo pelo olhar do outro.

O problema é que a validação dura pouco.

Ela exige repetição constante.

Precisa ser renovada, exibida e reafirmada continuamente.

O ser humano precisa sentir algum nível de realização para não afundar completamente na tristeza. Trabalhar, construir relações, criar metas e estabelecer uma direção constituem a tentativa mais comum de organizar a vida.

Mas, como vimos anteriormente, ter propósito não impede o vazio.

Em A A morte de Ivan Ilitch, de  Liev Tolstói, vemos o retrato desse colapso.

Ivan construiu uma vida impecável para os outros. Seguiu regras, subiu na hierarquia e organizou sua existência pelo manual da conveniência. Uma coerência puramente cosmética.

Perto da morte, a ilusão desmorona.

Ele percebe o abismo entre sua vida pública e sua verdade interna:

“É como se eu estivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isso. Perante a opinião pública, eu subia, mas, na verdade, afundava.”

Mais adiante, o choque:

“Talvez eu não tenha vivido como se deve — acudia-lhe de súbito à mente. — Mas como não, se eu fiz tudo como é preciso?”

Não se trata apenas de arrependimento.

O que colapsa em Ivan Ilitch é a narrativa inteira que sustentava sua identidade.

Ele não falhou por falta de direção, mas por passar a vida inteira sustentando uma estrutura que não dialogava com seus verdadeiros desejos: a esposa bonita e desejada que ele não amava; a casa impecável e luxuosa com seus moradores carentes de afetividade; um emprego que pagava bem; amigos poderosos — uma vida bem-sucedida baseada em puro status e interesse.

E talvez seja justamente essa a armadilha de ouro do homem contemporâneo: acreditar que satisfazer as expectativas do mundo basta para pacificar aquilo que existe dentro de si.

Tolstói torna isso ainda mais perturbador porque Ivan Ilitch não era um fracassado social.

Dentro da tradição russa do “Homem pequeno”, o sofrimento geralmente aparecia ligado ao indivíduo invisível, esmagado pela pobreza, pela burocracia ou pela insignificância social.

Ivan era o oposto disso.

Externamente, sua vida parecia grande.

Internamente, era minúscula.

Existe uma narrativa coletiva de que ser uma pessoa comum é sinônimo de falta de ambição, falta de propósito ou uma vida malsucedida.

Como já apareceu em Crime e Castigo, a narrativa de excepcionalidade talvez seja uma das formas mais sofisticadas de fugir da própria sensação de insuficiência.

Poucas coisas são tão desconfortáveis quanto aceitar a própria normalidade.

Queremos acreditar que existe algo em nós que merece atenção especial, reconhecimento constante ou algum tipo de distinção invisível.

No entanto, essa distinção nem sempre precisa vir do status financeiro ou do prestígio material.

Vimos também como Fiódor Dostoiévski traz o outro polo — mais espiritualizado — por meio da bondade pura, da integridade e do idealismo em O Idiota.

O paradoxo permanece idêntico: seja pelo excesso de bens ou pelo excesso de pureza moral, criamos narrativas que integram o vazio à ilusão do excesso.

Buscamos ser “demais” para não termos que encarar que, no fundo, somos meramente humanos.

Se isso já existia no século XIX, quando Tolstói e Dostoiévski mostraram que o vazio pode estar enraizado tanto no topo da hierarquia social quanto nas aspirações morais mais elevadas, tudo ficou ainda pior com a modernidade.

As redes sociais transformaram essa necessidade de ser especial em performance permanente.

O feed exige excepcionalidade contínua:

  • mais beleza,
  • mais produtividade,
  • mais opinião,
  • mais autenticidade performada,
  • mais felicidade exibida.

Aos poucos, a vida deixa de ser vivida e passa a ser organizada em função daquilo que pode ser mostrado. Mas felicidade exibida não é, necessariamente, felicidade vivida.

No fim das contas, aceitar a própria normalidade talvez não seja um fracasso, mas uma forma rara de libertação.

Descobrir-se comum remove das costas o peso insustentável de precisar provar algo para uma plateia distraída e insaciável.

O grande paradoxo da nossa era é que, quanto mais tentamos sustentar a narrativa de alguém extraordinário, mais nos afastamos da possibilidade de experimentar alguma coerência real.

E sabe o que já dizia Aristóteles, mais de 200 anos antes de Cristo?

A felicidade é um fim em si mesma. Nenhuma ferramenta externa, como dinheiro ou poder, é capaz de fabricá-la.

Por mais que nosso ego queira sempre nos convencer de que o desconforto ou o esvaziamento interno devem ser resolvidos buscando uma solução no mundo ou uma explicação no outro, a saída exige mais coragem: olhar para dentro de si e perguntar o que realmente falta.

Talvez a pergunta mais importante não seja o que você vai postar amanhã. Mas o que sobra de você quando a tela se apaga.