O vazio que herdamos
Por que você não precisa fazer as pazes com sua criança interior.

Existem dores que não surgem daquilo que aconteceu conosco, mas daquilo que nunca aconteceu.
Como assim?
Elas surgem daquele buraco dentro de você do qual emergem os medos mais inimagináveis. O tal vazio que produz compensações e mecanismos de defesa sem que sequer percebamos.
Talvez você busque constância para compensar a imprevisibilidade com que percebeu a vida na infância. Talvez busque novidade, expansão e um otimismo exacerbado para compensar o aprisionamento mental, o medo da mediocridade, o tédio ou a falta de sentido. Ou, quem sabe, hiperproteção e apego excessivo para compensar o medo do abandono. Talvez tente agradar a todos por medo da solidão, do conflito ou da rejeição social.
E assim seguimos.
Você provavelmente já ouviu a clássica pergunta: “O que você diria para a sua criança ferida?”
Dependendo das condições em que você cresceu, a lista pode ser maior ou menor. Independentemente dos culpados, há algo maior nisso: a dor que você carrega pela criança que não pôde ser, que não foi vista ou ouvida; o vazio do desamparo por quem um dia deveria ser seu porto seguro, seu mundo, seu herói, e não foi.
Querendo ou não, na humanidade dos nossos pais, alguma ausência, alguma falta, alguma lacuna foi deixada. E é justamente nesse espaço que começamos a construir a narrativa sobre quem somos, passando a vida inteira tentando encontrar alguma forma de preenchimento.
Talvez, de todos os nossos vazios, esse seja o mais difícil de compreender. Porque a criança não interpreta o mundo pela abstração ou pelos mecanismos que os adultos se veem obrigados a engrenar.
A criança percebe apenas a distância entre aquilo que precisava e aquilo que recebeu.
Depois crescemos.

Passamos a enxergar o mundo exatamente como nossos pais enxergavam, mas continuamos operando a partir da falta percebida na infância. E ali, entre o saber e o viver, a lacuna vai sendo preenchida e esvaziada por cada nova narrativa que contamos tentando dar um final diferente ao nosso passado.
O que resta é a fratura: um vazio que, uma vez internalizado, raramente encontra reparação completa.
Talvez por isso o vazio seja o sentimento mais estruturante da experiência humana. Dele emergem os outros: medo, ambição, idealismo, ressentimento, desejo, amor, melancolia etc.
O vazio permanece mesmo quando encontramos propósito. Ele atravessa também o idealismo, sustenta nossas narrativas e reaparece até mesmo nas tentativas de nos tornarmos alguém.
E quanto mais caminhamos, dentro da verdade interna, para nos tornarmos adultos, mais vamos nos afastando daquela criança que guia a nossa vida. Nem todos conseguem. E essa talvez seja uma das verdades mais tristes sobre crescer.
Kafka, em seu desabafo ao pai, trouxe para a literatura (mesmo não sendo de sua vontade) uma amostra sobre como o vazio deixado na infância molda o comportamento adulto, porque aquela criança ainda está ali, orbitando no que faltou. Em sua Carta ao pai, ele disse:
“Não vou dizer, é claro, que me tornei o que sou apenas como resultado de sua influência. Isso seria muito exagerado (e de fato estou inclinado a esse exagero)”.
E completou:
“Entre nós não houve uma luta real; logo fui liquidado; o que restou foi fuga, amargura, melancolia e luta interior”.
A tragédia de Kafka, no entanto, revela o avesso de uma grande verdade: é precisamente a impossibilidade de preencher esse oco que nos força a caminhar. Um copo só tem utilidade por causa do seu espaço vazio. Uma casa só pode ser habitada por causa do vão entre as paredes. O vazio na nossa alma é, paradoxalmente, o que nos permite desejar, criar e buscar o novo. Se fôssemos inteiramente cheios e satisfeitos desde a infância, seríamos estáticos. E talvez ainda assim continuaríamos insatisfeitos.
Kafka passou a vida orbitando a percepção da falha paterna: a culpa de se sentir insuficiente, a dificuldade de existir diante do outro e a sensação constante de fracasso. Quanto mais se prendia a essa ausência, mais se aproximava justamente daquilo que tentava evitar.
Para mim, não se trata de fazer as pazes com a criança interior. Ela não existe mais, embora ainda dite muito do adulto que somos: nas birras quando nos enviesamos, ou naquele gatilho que nos faz agir de forma irracional.
Não fazer as pazes com essa criança ferida não é uma tragédia, é libertação; afinal, você não precisa ser aquela criança. Ela pode continuar existindo como parte daquilo que nos move, mas sem conduzir a nossa vida. Sem que nos tornemos subordinados a ela.

Porque nada é mais adulto do que seguir adiante consciente dos próprios vazios, sem transformar cada ausência numa busca desesperada por preenchimento.
Lembra sobre os personagens começarem o livro querendo algo e terminarem descobrindo do que precisam?
Talvez conosco não seja tão diferente.
Talvez nós precisemos justamente daquilo que tentamos evitar o tempo inteiro: o vazio.