Algumas pessoas não querem ser amadas. Querem apenas ser escolhidas.
At the Window, Hammershøi
Poucas coisas são tão difíceis para o ser humano quanto a ausência de resposta. Uma mensagem sem retorno. Um convite ignorado. Um silêncio que se prolonga além do esperado.
O vácuo do outro é um gatilho para o nosso próprio vazio.
Embora exista o jargão de que “a ausência de resposta é uma resposta por si só”, essa resposta raramente se alinha aos nossos desejos. Como bons contadores de histórias, buscamos outras explicações que não o próprio silêncio. Preenchemos o vazio com hipóteses, interpretações e fantasias. Afinal, poucas coisas são mais desconfortáveis do que admitir que não sabemos.
Pense na pessoa que não posta absolutamente nada em redes sociais. Ela está nas comemorações, sai com amigos, vive a própria vida, mas publica apenas fotos sozinha ou não publica nada. Ou naquela pessoa que nunca responde a uma mensagem imediatamente. Ambas costumam ser criticadas como egoístas, distantes ou mal-educadas. Mas essa é apenas uma leitura possível.
A outra: muitas vezes, o que essa pessoa está fazendo é estabelecer limites: do seu espaço pessoal, do seu tempo. Ela não busca a validação alheia para sua própria vida ou felicidade; ela não para o que está fazendo por medo do que o outro possa pensar dela.
Por outro lado, quem responde imediatamente também não pode ser reduzido a uma única explicação. Talvez exista ali o medo de ser malvisto ou descartado. Talvez haja insegurança suficiente para buscar confirmação constante de que tudo está bem. Ou talvez seja apenas alguém que genuinamente se importa e faz questão de demonstrar isso.
Existe ainda outra possibilidade: a pessoa que transforma a ausência de resposta em estratégia. Que retém informações, atrasa mensagens e administra a própria disponibilidade como forma de poder. Como se o silêncio pudesse produzir valor. Como se o atraso pudesse produzir desejo. Até que encontra alguém para quem o jogo simplesmente não funciona.
Há também uma quarta via, talvez a mais complicada de prever: a pessoa que acompanha tudo sobre você, mas faz questão de não deixar rastro. Alguns interpretam isso como inveja — alguém que deseja o que você tem, se incomoda com o espaço que você ocupa e torce pelo seu fracasso. No entanto, pode ser alguém que se importa demais, até mais do que gostaria de admitir para si, e se vê paralisado: o medo de ser interpretado errado ou de não ser retribuído como espera. O sentimento fundamental aqui não é a inveja, mas sim a vergonha que paralisa.
Que conclusão podemos tirar disso?
Talvez apenas esta: existe uma distância difícil de mensurar entre aquilo que fazemos e a forma como isso é interpretado pelo outro. Existe uma distância entre agir por coerência interna e agir por medo. E essa distância é constantemente testada em nossas relações.
Porque, no fundo, a questão raramente é a mensagem.
A questão é o que o silêncio desperta em nós.
Quando não suportamos a ausência de resposta, começamos a preenchê-la. Inventamos razões. Atribuímos intenções. Construímos narrativas capazes de explicar aquilo que não podemos controlar. E quando nenhuma delas nos satisfaz, o vazio frequentemente se transforma em ressentimento.
Poucos personagens ilustram isso tão bem quanto o narrador de Memórias do Subsolo, de Dostoiévski.
“Fabriquei uma vida, só para pelo menos viver de algum jeito. (…) Vocês sabem: o fruto direto, legítimo da consciência é a inércia, isto é, ficar conscientemente de braços cruzados. Já me referi a isso. Repito, repito com ênfase: todas as pessoas ‘diretas’ e os homens de ação só agem assim porque são estúpidos e limitados.”
E logo depois:
“Vou lhes dizer outra coisa que seria melhor: se eu mesmo acreditasse em qualquer coisa do que acabo de escrever. Quer dizer, talvez eu acredite, mas ao mesmo tempo sinto e desconfio de que estou mentindo como um sapateiro.”
O homem do subsolo é incapaz de abandonar a própria narrativa. Ele interpreta tudo, suspeita de tudo, racionaliza tudo. Sua consciência não o aproxima da verdade; ela o afasta da ação.
Como vimos nos ensaios anteriores, o vazio frequentemente nos leva a criar histórias para sobreviver àquilo que não conseguimos suportar. Mas, quando essas histórias encontram o desejo, o amor, o reconhecimento e a rejeição, elas ganham uma nova forma.
Passam a girar em torno da escolha.
Talvez essa seja uma das verdades mais desconfortáveis sobre os relacionamentos: algumas pessoas não querem ser amadas. Querem apenas sentir que foram finalmente escolhidas.
E, em uma era digital em que o descarte parece mais provável do que o compromisso, o subsolo contemporâneo se povoa de uma legião de amargurados, cada um tentando transformar o silêncio do outro em uma resposta que consiga suportar.
Essa resposta diz muito sobre si próprio, embora determinar com exatidão qual seja a fratura seja uma atitude um tanto simplista. Na complexidade do ser humano, as narrativas se sobrepõem e se contaminam; os sentimentos se fundem. Veja, por exemplo, o que muitos interpretariam apenas como “ansiedade social” na mente da personagem que criei em Amiga Insana:
“Por que alguém seria mau comigo? Como podem não gostar de mim? Eu faço tudo por eles. Eu me desdobro tentando ser a versão perfeita para eles. Eles são tão ingratos! Aqui estou eu tentando fazê-los notar que estou sangrando e eles nem se importam. Eu não vou mais ajudá-la… Espera, ela ainda não respondeu minha mensagem e nem atendeu minha chamada de vídeo. Faz quanto tempo que eu mandei? Uns dez minutos, talvez vinte. Ela está me evitando. Ela deve estar me odiando. Não importa, Cecilia me respondeu agora. Sério?! Você me ignora e depois vem falar como se nada tivesse acontecido? Quem ela acha que é para falar comigo assim? (…) Vou mandar essa foto de gatinho fofo para ver se ela fala comigo… ou será que é melhor esse meme engraçado? Vou mandar os dois. Vou puxar assuntos aleatórios para ver se ela me responderá. Se não falar, tudo bem, não me importo, procuro outro amigo.”
Aqui temos uma personagem que lida com um vazio profundo que contamina todas as suas relações em um jogo manipulativo. À primeira vista, sua conduta soa como cruel ou narcísica, mas está profundamente enraizada na culpa, no medo do abandono e por um insuportável sentimento de vergonha. Isso a faz ir contra sua própria coerência interna — o que não é muito difícil, considerando que seu mundo interno é caótico e distorcido da realidade.
No entanto, o que fica visível para o outro é o impacto bruto desse caos. Quando retorna do banho, a Cecília acaba de conhecer o peso exato dessa insegurança: mais de vinte mensagens em trinta minutos.
Onde você está? Eu preciso de você. Para, por que você não me atende? Você não quer que eu vá para aí? Eu sabia que não podia contar com você. Você desligou o telefone? Você se afastou do computador? ODEIO ISSO! VOCÊ FEZ ISSO ENQUANTO ESTOU TENDO UM COLAPSO. VOU TE BLOQUEAR PARA SEMPRE! VOCÊ NÃO VAI MESMO ME RESPONDER?”
O colapso da personagem não nasce da maldade, mas do horror ao espaço em branco.
Nos trinta minutos em que uma personagem esteve no banho, o silêncio não foi apenas a ausência de som; foi o palco onde a outra projetou seus piores fantasmas de abandono e rejeição. Como o homem do subsolo de Dostoiévski, ela preferiu fabricar uma guerra fictícia a ter que suportar a dolorosa inércia de não saber.
Como acontece tantas vezes, tentamos preencher o vazio com uma narrativa capaz de torná-lo suportável. Algumas vezes chamamos isso de idealismo. Outras, de visibilidade. Outras ainda, de amor.
Fugimos, contudo, da pergunta principal, aquela que realmente importa:
Se o outro não existisse, qual seria a nossa própria interpretação sobre o vazio que carregamos?