Literatura com psicologia,  Saúde Mental

A Armadilha de Ouro: Por que seu idealismo pode ser seu vazio?

Quantas vezes você venceu uma discussão com um amigo ou com seu parceiro ou uma situação de trabalho, mas saiu com uma sensação de derrota interna porque teve que trair uma parte de si para “jogar o jogo”?

Giorgio de Chirico - Hector and Andromache
Giorgio de Chirico – Hector and Andromache (1970)

Como discutido no post anterior, nem sempre o vazio existencial vem da falta de uma bússola moral. Às vezes, ele nasce da nossa absoluta incapacidade de aplicá-la na vida concreta. Entre aquilo que nos falta e a nossa vontade, existe algo que é o verdadeiro motor do comportamento humano: a narrativa que criamos para nós mesmos.

Por isso mesmo, o vazio pode surgir até para aqueles que preencheram o checklist do script padrão: trabalho, dinheiro, sucesso, amor. Nem sempre nossa narrativa está em compasso com nossos reais anseios, porque sempre orbitamos a falta e a insatisfação: uma vez cumprido um desejo, logo desejamos algo novo, ainda não vivido.

Diante de impasses e conflitos, sempre nos apegamos à nossa narrativa como a versão verdadeira, a mais plausível, a mais lógica. Negá-la seria negar nosso próprio entendimento do “eu”. Acontece que nem sempre essa narrativa é coerente com a situação que vivenciamos, ou adequada à estrutura social que nos cobra determinados padrões. O outro, invariavelmente, tem outra versão dos fatos.

Mas a minha é a certa.

A sardinha e os tubarões

Quanto mais tentamos sustentar essa narrativa de integridade, mais nos sentimos como uma sardinha em meio a tubarões. Não necessariamente porque o mundo seja explicitamente hostil, mas porque ele opera segundo uma lógica diferente: uma lógica em que a nossa coerência nem sempre é funcional.

O resultado não é apenas frustração. É uma forma mais sutil de ruptura: você sabe o que faria sentido, mas não consegue sustentar isso sem custo. Mesmo que seja um custo apenas emocional — como uma angústia que não sabemos de onde vem, a repetição de uma mesma história (mudando apenas nomes e lugares) ou uma insatisfação difusa que não conseguimos nomear.

E então surge a pergunta:

“Se eu tento agir com princípios, por que isso parece me colocar em desvantagem?”

Isolada, essa pergunta não transforma nada. Ela apenas torna a fratura mais visível, reforçando a sensação de isolamento e, consequentemente, a nossa própria noção de vazio.

O que a literatura já nos ensinou?

René Magritte’s Le thérapeute
René Magritte’s Le thérapeute

Retornando ao exemplo de O Idiota, Dostoiévski coloca o leitor diante deste exato paradoxo. O Príncipe Michkin não é tolo; ele é chamado de “idiota” porque sua lógica de bondade é ilegível para uma sociedade que gira em torno de status e trocas de favores. O resultado para Michkin é o colapso.

Mas existe alguma alternativa entre o cinismo do mundo e o colapso idealista? O que isso tem a ver com a sensação de vazio?

O nosso próprio cinismo

Indo mais a fundo: não estaríamos operando, o tempo todo, no cinismo ao tentarmos ser idealistas? Ao projetar nosso ideal como a régua moral que todos deveriam seguir à risca, como estamos, na realidade, operando? Estaríamos, talvez inconscientemente, impondo nossa verdade como absoluta? E o desprezo por aquele que não atende ou não se atém à nossa narrativa, como deve ser lido? Aposto que vários xingamentos ou, no mínimo, julgamentos passaram por sua cabeça.

Aqui, podemos observar como as narrativas que criamos nos colocam em uma “armadilha de ouro”. O personagem Ródion Raskólnikov, em Crime e Castigo, ilustra bem isso:

“O presente era uma inquietação constante; o futuro, um martírio que jamais teria fim. (…) Viver para quê? Que perspectivas tinha? Viver só para existir? Ele estava mil vezes mais disposto a entregar sua existência por uma ideia, uma esperança, até mesmo uma fantasia. A existência somente era pouco; ele queria mais.”

Seguindo a lógica da falta, estamos sempre orbitando o buraco impreenchível por meio de uma narrativa própria que nos convém. O indivíduo é, por si só, um idealista porque parte de um vazio que não sabe nomear. Raskólnikov se coloca como um pária social e, contraditoriamente, como um ser extraordinário destinado a um grande futuro. Para ele, o mundo lhe devia algo por sua capacidade acima do normal.

Brilhantemente, Dostoiévski retoma essa ideia em O Idiota:

“Não há, com efeito, nada mais aborrecido do que ser, por exemplo, (…) bastante esperto e mesmo sagaz e, todavia, não ter talento, nenhuma faculdade especial, nenhuma personalidade mesmo, nenhuma identidade, não sendo propriamente ‘mais do que como todo mundo’. (…) ter inteligência, mas nenhuma ideia própria. (…) Há uma extraordinária multidão de gente assim no mundo, muito mais até do que a muitos possa parecer. Essa multidão pode, como toda a outra gente, ser dividida em duas classes: os de inteligência limitada e os de alcance mais vasto. Os primeiros são mais felizes.”

Aqui está a ironia: ao se ver como um ser brilhante e, por isso, com “licença para matar”, o maior erro de Raskólnikov não foi o crime, mas ter sido descoberto. É mais fácil para ele manter sua narrativa de excepcionalidade do que confessar que se viu aterrorizado e autopunido por suas ações, muito mais do que pela prisão. O vazio de ser “apenas um homem comum” (e esse será o tópico para o próximo post) era insuportável, pois destruía toda a narrativa que ele criara para si.

Na técnica narrativa, é comum o personagem começar desejando algo (o want), mas descobrir no caminho do que ele realmente precisa (o need). Na ficção, esse conflito geralmente se resolve. Na vida real, no entanto, oscilamos eternamente:

  • Momentos em que a narrativa nos preenche.
  • Momentos em que a realidade a atravessa, esvaziando-nos de nós mesmos.

Talvez o segredo não seja vencer o jogo dos tubarões, nem colapsar como Michkin, mas reconhecer que a nossa “bondade” — e a nossa suposta excepcionalidade — é também a história que contamos para sobreviver ao vazio.

Você teria coragem de abandonar a história que conta sobre si mesmo, mesmo que isso significasse admitir que você é apenas mais uma “sardinha” no oceano?